Presença que se torna legado: Homenagem in memoriam a Valdir de Castro Oliveira

A comunidade científica perdeu no início deste ano uma personalidade significativa para a trajetória de instituições de ensino e pesquisa da Comunicação no Brasil, entre elas o Ciseco. Valdir de Castro Oliveira, professor aposentado do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), teve um papel importante na formação e consolidação da Comunicação e Saúde como um campo científico e acadêmico, como destaca Inesita Soares de Araújo, diretora do Ciseco.

Parentes, amigos e colegas deixam em forma de textos suas lembranças e homenagens que podem ser lidas aqui.

Lembranças e homenagens de parentes, amigos e colegas a Valdir de Castro Oliveira

Davi de Castro Oliveira (Filho)

Algum tempo atrás Julia minha esposa me perguntou se havia algo importante ainda para eu e meu pai conversarmos, antes que ele se fosse. Curiosamente, respondi que não. Eu queria mais tempo, queria vê-lo curtir seus netos, mas eu e ele tivemos uma relação plena. Meu pai não era só meu pai, ele era meu melhor amigo. Nós vivemos intensamente uma infinidade de momentos. Ele me presenteou de tantas formas que hoje sei que parte dele vive em mim.
Por mais de vinte anos fiz com meu pai o trajeto entre Brumadinho e Belo Horizonte de carro, e por muitos anos semanalmente. Esse tempo foi um desses grandes presentes. Aprendi de tudo. Sobre a construção de Brasília e as histórias de meu avô, sobre a história do brasil, sobre comunicação e tudo mais que ele ensinava. E ele ensinava muitas coisas, o que trazia da sua cátedra universitária, das suas pescarias em alto mar em João Pessoa, e dos ensinamentos de dona Noeme. Cresci ouvindo e perguntando, a minha curiosidade enorme se retroalimentava das histórias dele, e vivíamos intensamente aqueles momentos.
Meu pai me deu também raízes. Em todo Natal, com seus irmãos e irmãs, juntava família e agregados na casa de minha vó e criava nossa identidade. Os filhos da lavadeira da esmaltina, os netos do comprador de papagaios e melhor motorista do Brasil. Nos lembrava da coragem e da importância de abraçar o mundo, que não havia obstáculo intransponível, e nos ensinava a fazê-lo sem nunca nos esquecer de quem somos. Das nossas raízes. E meu pai me deu famílias. Para além da floresta, no Inhotim e em Brumadinho, onde Cidinha encheu nosso lar de amor, e me deu duas irmãs maravilhosas, Dani e Alice. Onde fincamos mais raízes, e crescemos. Sob o solo, a alegria e o amor de meu pai e Cidinha pulava as cercas, da tia Lourdes, da tia Lunga, da tia Irene, do vovó e da vovô. E pegava a linha, seguia com Dri, Jean, Neiva, Geraldo, a família da Cidinha que também se tornou nossa família e que esteve sempre presente. E meu pai me deu amigos. Meus primos, Branquinho e Djalminha, na verdade eram seus primos. Mas na generosidade meu pai presenteava a amizade, nos levando nas pescarias, nas viagens, e sempre estando ao nosso lado em tudo que aprontávamos. Foi um adulto que deixava tudo, mas nunca nos deixava sós. E meu pai me deu orgulho. São tantas histórias e tantas conquistas. Tantos mundos que ele viveu, do boteco do Lúcio até a Itália com seu Antônio, do programa da FAO no Peru, até a batalha da hemodiálise, do cuidado com os filhos e filhas, até as estantes da Amazon, da sua máquina de datilografar a atividade quase diária no zap da família. E ele se foi com orgulho, de tudo que viu, das decisões que tomou, e daqueles que deixou. Da sua família, de seus amigos, de seu legado. Ele esteve presente na vida de tantos, em momentos felizes e momentos difíceis, e todos nos lembramos dele com admiração, mas sobretudo com carinho. Mas o maior presente que meu pai nos deu foi seu olhar. Um olhar aguçado e profundo, um olhar sem julgamento e generoso, que ele dedicava a todos. Ele via as pessoas, seus lugares, suas relações. E ele se deslumbrava, ao fazê-lo, criava vida. Suas histórias não eram distintas da realidade, elas eram a realidade transformada em poesia. E ele era esse jornalista da vida 100% do tempo. Na oralidade ele conquistava a empatia de todos, e na palavra escrita ele soprou a vida na vida de tantos. Com seus poemas no Requiém ele capturou a sutileza do cotidiano em uma terra vermelha cercada de verde e tocada pelo apito da Maria Fumaça, que acho que nunca ouvi, mas sei o som exato. Em seu livro sobre a história do Inhotim, ele imortalizou várias gerações de uma comunidade que foi substituída, mas também se tornou maior. O olhar do meu pai via de espiões alemães a filmes russos censurados, de fazendas a indústrias, mas via acima de tudo, as pessoas. Em seu último livro de cuidados paliativos ele traz de volta seus colegas de hemodiálise que já se foram, e deixa também seu relato derradeiro, de sua luta e do que viu, da tragédia crime que se abateu sobre brumadinho e levou amigos e parentes, e quase o levou de emoção sentado em sua cadeira de diálise. Em todos os desafios, meu pai nunca se abateu. Celebrou a vida até o último dia, com sua família e amigos, seus netos correndo a seus pés. Sua força e sua alegria vinham das histórias que tinha para contar. Cada um de seus relatos, é uma vida que ele eternizou. E tenho comigo que todos aqui também o manterão vivo através das suas histórias. Esses são meus sentimentos e rejubilo por ter vivido todos esses dias ao lado de meu pai.

Inesita Soares de Araújo

Morreu Valdir… Viva Valdir!
Morreu Valdir, o homem que escrevia a contrapelo, em prosa e poesia, registrando as lutas, sedimentando memórias, dando nome, forma, vida e importância a pessoas e acontecimentos que sem ele passariam invisibilizados.
Morreu Valdir, o jornalista que não se intimidava com interesses e pressões dos poderosos, o jornalista que jogava luz sobre temas fundamentais para a cidadania.
Morreu Valdir, o defensor entusiasta do SUS e do controle social. O pesquisador dos conselhos de saúde, que os conhecia na teoria, na prática, na vivência.
Morreu Valdir, aquele que, no ensinar da comunicação, emprestava seus olhos aos alunos, ensinava a ver e a compreender o mundo, amado e respeitado como mestre que foi.
Morreu Valdir, o amigo que escutava, que acolhia, que era casa de portas abertas.
Morreu Valdir, o garoto pobre que veio da roça, que superou todas as adversidades do seu lugar de fala periferizado, que deu sentido ao verso “caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”.
E que caminho, querido Valdir, que caminho! Abrindo sendas, adubando a terra, espalhando sementes do conhecimento e do pensamento crítico, fazendo ver por uma perspectiva que vinculava ciência a um inegociável compromisso com a cidadania e com os interesses coletivos.
Morreu Valdir. Viva Valdir! Que sua luz continue nos iluminando e nos inspirando. Que suas sementes continuem florescendo. Que sua memória nos fortaleça.
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Valdir de Castro Oliveira teve um papel importante na formação e consolidação da Comunicação e Saúde como um campo científico e acadêmico. E isso se deu por dois trajetos. O primeiro, quando estabeleceu vínculos com o Grupo Técnico de Comunicação e Saúde, da ABRASCO – Associação Brasileira de Saúde Coletiva, ainda nos anos 1990, do qual se aproximou por sua atuação junto ao SUS de Brumadinho, cidade onde morava, em Minas Gerais e ocupava um lugar de conselheiro, pautando sua atuação pela atenção à comunicação com os cidadãos. O controle social é uma das diretrizes do SUS e Valdir era entusiasta dessa então nova concepção de saúde, militando e dedicando muito de suas pesquisas às instâncias de participação social na saúde. A experiência do conselho de saúde de Brumadinho contemplando a comunicação como um eixo estruturante teve muita repercussão, inclusive sendo pauta da mídia nacional, a ponto do então presidente Fernando Henrique Cardoso tê-la mencionado no seu programa semanal de rádio como um exemplo a ser seguido em todo o Brasil.
As pesquisas e textos de Valdir sobre os conselhos de saúde estão entre os mais relevantes produzidos sobre o tema. Até nos últimos anos, com a saúde já bastante comprometida, ele participou de congressos das Ciências Sociais em Saúde, propondo reflexões a partir de suas vivências como cidadão, vinculando inapelavelmente a saúde a todas as outras instâncias da vida humana, enfatizando os direitos sociais e humanos, nos quais incluía o direito a voz ativa.
O segundo trajeto foi pela via acadêmica, inicialmente ainda nos anos 1990 como professor convidado do curso de aperfeiçoamento em Comunicação e Saúde*. Já em 2009 vinculou-se ao PPGICS – Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação Científica em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz, apoiando o programa desde sua concepção. Valdir foi professor permanente e orientador de mestrado e doutorado, amado e respeitado por seus alunos e colegas. Tematicamente, dedicou-se a estudos de mídia, aportando autores importantes e então pouco conhecidos, ensinando a ver os meios de comunicação de forma crítica, mas com rigor científico. Dedicou-se também ao tema da comunicação no SUS, especialmente quando vinculada ao controle social. Suas orientações abrangeram, além desses, temas que traziam a comunicação em sua relação com a desigualdade e a vulnerabilidade e com os movimentos sociais de resistência, como as populações afetadas por construção de hidroelétricas, ou as vítimas de rompimentos de barragens (por ironia do destino, sendo depois ele próprio vítima do acidente-crime ambiental na cidade de Brumadinho, onde residia).
Sua preocupação com a desigualdade no país pautava também suas aulas e orientações quanto às mídias, pois entendia que “a desigualdade política, simbólica e cognitiva era um fator determinante no resultado da comunicação”. E que era preciso reinventar o uso das mídias, explorando o potencial das mídias digitais para a mobilização dos grupos frente à violação dos seus direitos “ou de lutar pela ética e pela responsabilidade em relação a si mesmos e em relação à coisa pública”. Chamava atenção também para a capacidade desse meios de “promover, ao invés de violência, intolerâncias e preconceito, um mundo mais plasmado pela solidariedade e pela compaixão entre as pessoas, com a sociedade e com o nosso planeta, hoje ameaçado de sucumbir pelo modo acelerado com que estamos dilapidando o meio ambiente e as outras espécies de vida”. Mas Valdir não era um utópico sonhador, sim um utópico, mas muito bem informado e com uma percepção nítida de que “a maior parte da comunicação contemporânea está hoje plasmada pelos princípios da linguagem do marketing, dos algoritmos da internet, pela intolerância política e pelo negacionismo dos valores científicos e de igualdade”. Nesse contexto, acreditava que “como comunicadores (…) nosso dever é o de investir em seu potencial (dos meios digitais) de nos reconciliarmos com a dimensão solidária e profunda da vida humana e com as outras formas de vida”.
Valdir foi professor no PPGICS por mais de dez anos, mesmo em meio a um processo progressivo de agravamento das suas condições de saúde. Quando não pôde mais fazer as viagens para o Rio, permaneceu ainda um tempo com orientações. A lacuna que ele deixou não foi nunca suprida.
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Em 2023, numa entrevista concedida a mim e a Adriano de Lavor**, para um número especial da revista ALAIC*** sobre Comunicação e Saúde (entrevista da qual reproduzi os trechos aqui aspeados) fez questão de aportar a necessidade de pensar e praticar uma comunicação a contrapelo, ideia que desenvolvia a partir das leituras de Benjamin. Mas, também se inspirava em São Francisco de Assis e no Papa Francisco, citando especificamente uma encíclica (Laudato Si), em que o papa tomava o santo como exemplo para ressaltar a importância de que a comunicação fosse atravessada pela “solidariedade com tudo o que e frágil neste mundo: o próximo, os animais e a natureza como expressões da vida”. E Valdir incluía, nessa referência o SUS, cuja estrutura descentralizada e solidária em relação à saúde pública do país o coloca como o melhor exemplo de generosidade e de solidariedade que o nosso país já teve em sua história – e que assim igualmente alimenta e nos desafia a pensar o campo da Comunicação e Saúde em sua potencialidade de exacerbar estes valores”. Era nesse sentido que propunha uma comunicação a contrapelo, pensando com Benjamin que “face as estruturas de poder e frente as narrativas hegemônicas, atores sociais situados nas partes baixas da hierarquia social de poder podem emitir suas interpretações sobre si mesmo e o mundo que os cerca, onde tentam valer seus direitos, histórias, memórias e reivindicações. Também se apoiava em Michel de Certeau, quanto à “inventividade frente a narrativas hegemônicas ou de poder pela instância mais fraca”. No seu entender, esses princípios desaguavam “na ideia de mídia tática – que pode ser invocada como uma forma de luta frente a estruturas desiguais de poder e de expressão. Se nestas estruturas o mais forte se vale
da estratégia, o mais fraco se vale da tática, de maneira que, neste terreno desigual de comunicação, o segundo se manifesta nos interstícios nos quais o primeiro tem pouco controle”.
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Tive a honra e a alegria de escrever o prefácio de seu terceiro livro, “Cuidados paliativos: comunicação e histórias de vida” ****, cuja autoria compartilhou com Juliana Felipeli Bernardes. Como epígrafe, citei Brecht, no poema que fala dos homens sagrados, aqueles que lutam por toda vida. Valdir foi um deles.


* Adriano de Lavor Moreira é jornalista, doutor em Comunicação e Saúde e mestre em Comunicação e Cultura. Na época era editor da Revista Radis – Comunicação e Cultura, permanecendo hoje em seus quadros jornalísticos. Integra e é o atual coordenador do GT Comunicação e Saúde da Associação Brasileira de saúde Coletiva (Abrasco).
** DE LAVOR, A.; SOARES DE ARAUJO, I. Por uma comunicação a contrapelo – entrevista com Valmir de Castro Oliveira. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, [S. l.], v. 19, n. 35, 2021. DOI: 10.55738/alaic.v19i35.682. Disponível em: https://revista.pubalaic.org/index.php/alaic/article/view/682. (Observar que o nome saiu grafado incorretamente na Revista, não consegui nunca a retificação. No Sumário e no editorial consta corretamente).
*** OLIVEIRA, V.C. e BERNARDES, J.F. Cuidados paliativos: Comunicação e histórias de vida. Editora Literíssima, Belo Horizonte, 2025.

José Milton Santos

VALDIR DE CASTRO OLIVEIRA E A EXTENSÃO PERMANENTE
Conheci Valdir de Castro Oliveira no início da década de 1970 quando fui seu professor na então Universidade Católica de Minas Gerais. No último encontro que nós tivemos em Brumadinho, que durou um dia inteiro em dezembro de 2025, Valdir estava muito nostálgico, mas com a memória mais viva que a minha. Recordou que fui eu que orientei a sua primeira reportagem para o Marco, jornal laboratório e mídia de extensão do curso, que circulava no Bairro Dom Cabral e região. Relembramos fatos importantes dessa experiência para os estudantes e para a comunidade.
Valdir ressaltou a nossa convivência na principal atividade de extensão do curso realizada no Vale do Jequitinhonha em Minas durante sete anos, onde equipes de estudantes se revezavam mensalmente realizando trabalho social, cultural, educativo e comunicacional em cinco municípios daquela região. Esse trabalho era realizado pela Universidade Católica de Minas juntamente com faculdades do ABC paulista com o suporte do Projeto Rondon. Para fundamentar o trabalho de extensão realizamos pesquisas de campo e audiovisual “O Universo Informacional dos Agricultores do Vale do Jequitinhonha” sob a orientação do prof. Antônio Fausto Neto e coordenação de campo do Valdir.
Essa extensão resultou, dentre outros frutos, na criação da Cooperativa de Artesãos de Araçuaí e Berilo e na realização em várias edições anuais da Feira de Artesanato do Vale do Jequitinhonha no Campus da PUC em Belo Horizonte, sempre sob a coordenação entusiasmada do Valdir.
Para planejar e coordenar a extensão no Vale, Valdir, eu e uma equipe de professores e estudantes criamos o Centro de Estudos e Pesquisa de Comunicação de Comunidade (Cepec). Valdir lembrou alguns autores que fundamentaram teoricamente o Cepec e seus projetos como Paulo Freire, Antônio Pasquali, Juan Bordenave, Luiz Beltran, Horácio de Carvalho, Antônio Gramsci, Louis Althusser, Frank Gerace e outros.
Na formulação do Documento Básico do Centro (1974), Valdir escreveu: “Ao comunicador social cabe pesquisar os sistemas e canais mais adequados para difundir as mensagens vinculadas às necessidades vitais da população.(…) Por quais canais ela é atingida? Quais as mensagens que recebe? Quais as suas necessidades? São perguntas que fazemos na tentativa de localizar e propor estratégias que visem a romper o fenômeno da incomunicação social.”
De 1989 a 1995 dividimos o mesmo gabinete no Departamento de Comunicação Social da UFMG e continuamos lá a desenvolver a extensão em Comunicação com a participação ativa de estudantes, principalmente em Ibirité, acrescida da participação do prof. Tilden Santiago.
No encontro com Valdir em dezembro do ano passado, com a participação também de Fernando Miranda, Marcos Alvarenga e Luiz Carlos Cardoso, repassamos os momentos mais marcantes de nossa convivência como uma espécie de ajuste de contas entre o que nos propusemos para nossas vidas em comum e o que efetivamente conseguimos realizar. O saldo foi positivo.

João de Lima

Fica para mim, um Waldir simples, comunicativo, acolhedor que reforçou em sua trajetória acadêmica e existencial um horizonte ampliado da comunicação e seus vínculos com a cultura popular.
Expressava um profundo vínculo com a preservação da memória coletiva de Brumadinho, sua cidade natal, onde vivia.
Destaco a importância do trabalho dele numa Brumadinho marcada por enormes sequelas do rompimento da barragem do Córrego do Feijão.

Ivone de Lourdes Oliveira

Valdir: simplicidade, delicadeza e compromisso com a vida
Valdir, amigo e compadre é minha referência intelectual e humana. Partiu para outra dimensão, mas nos deixa um legado tecido de sensibilidade, simplicidade, delicadeza, amizade, ética, conhecimento e profundo comprometimento com o mundo nas perspectivas humana, política, social e cultural.
Ele ensinava sem nunca exercer um poder professoral. Ensinava pelo exemplo, pelo modo de estar no mundo, pela escuta atenta, pelo gesto simples. Ensinou-me a viver, a ser pesquisadora, a conviver com as diferenças e reconhecer a humildade como força e a sensibilidade como virtude. Ensinou-me que psquisar é ir ao fundo, buscar evidências, sustentar um olhar crítico, mas sem jamais perder o afeto, a delicadeza e o respeito pelo outro.
Para além de seu rico legado acadêmico, quero falar do ser humano, do professor e do amigo que ele foi ressaltando a ternura como sua maior característica. Diante da grandeza de sua trajetória intelectual, poderia me deter em sua vasta produção e em suas contribuições ao campo da comunicação, no entanto prefiro dizer do amigo, porque, em Valdir, o conhecimento jamais esteve dissociado do amor. Sua intelectualidade sensível se expressava na forma ética, generosa e profundamente humana com que se colocava diante da investigação e da vida. Sua presença permanece, não apenas pelo que produziu, mas, sobretudo, pelo modo como existiu entre nós.
Ao longo de toda a sua trajetória, resistiu às desigualdades sociais, à violência e às injustiças. Sabia compreender as contradições e ambiguidades da vida e do mundo sem recorrer a simplificações fáceis. Sua postura ética era indissociável de seu compromisso com as pessoas. Talvez por isso nossas conversas eram tão profundas e, ao mesmo tempo, tão leves. Como eram boas as nossas conversas!
A última aconteceu há dois meses, em novembro de 2025, em sua casa e durante nossa visita ao Memorial de Brumadinho. Ali, Valdir me ofereceu uma verdadeira aula sobre os impactos das mineradoras no município, sobre a tragédia da barragem do Feijão e sobre a complexa construção do memorial, sob a responsabilidade da empresa Vale, com a participação da comunidade. Mesmo debilitado, mantinha a força, a lucidez e a delicadeza ao explicar cada etapa do processo, o diálogo da empresa com a Associação de Moradores e a construção coletiva do projeto.
Valdir seguia sonhando. Ainda tinha projetos, sobretudo o desejo de produzir novos livros. Como escritor, esse intelectual simples de Brumadinho deixou quatro obras fundamentais sobre a cidade, sobre Inhotim e sobre sua experiência com a hemodiálise, que, atualmente, ele fazia diariamente.
Sua escrita entrelaçou vida, pesquisa, memória e humanidade. Sua obra é testemunho da forma comprometida e sensível de produzir conhecimento.
Falar de Valdir não é simples. As palavras parecem sempre insuficientes para abarcar a densidade de sua presença humana. Ainda assim, arrisco dizer o que ele representou na minha vida e, certamente, na vida de tantos que passaram pela universidade, seja para ensinar ou seja para aprender, um exemplo de intelectual ligado as suas origens e de um ser humano que escutava o outro, sentia as dores das injustiças sociais. Com ele, aprendi que o saber só ganha sentido quando atravessado pelo afeto e que a universidade pode e deve ser também um lugar de humanidade e delicadeza.
Valdir nos ensinou que a simplicidade e a ternura não são fragilidades, mas fundamentos essenciais para o exercício da pesquisa, para a produção do conhecimento e para o convívio social. Com ele, o aprendizado era certo e contínuo. Sua ausência é sentida, mas seus ensinamentos permanecem vivos, orientando caminhos, afetando gerações e nos lembrando que é possível fazer ciência com amor e humildade.
Valdir segue conosco, seja em suas obras literárias, em sua produção cientifica ou na nossa memória. Será sempre lembrado pelo seu jeito de ser e de viver.

Lélio Fabiano dos Santos

Réquiem para o VALDIR INHOTIM DE CASTRO OLIVEIRA
Deixou para mim o que escreveu como alguns dos rastros de aprendizagem do Vale do Jequitinhonha que você tanto incentivou, no seu livro Réquiem para Inhotim, que tive a felicidade de receber em outra faculdade que dirigia, mais de quarenta anos depois, das mãos de uma aluna, sua linda e meiga filha, a Alice.
Que isso, Valdir, você parte deixando pegadas de elefantes, marcas indeléveis registradas em suas passagens acadêmicas, em seus poemas, artigos, dissertações e no memorial que deixou escrito para a posteridade e dialogicamente dirigido a um os maiores memoriais da cultura no estado de Minas Gerais erigido em território que você habitou, o Inhotim Museu de Arte Contemporânea.
Lembro-me do jovem pouco mais que um garoto de várzea recém aprovado no vestibular da Faculdade que construíamos desde meses. Você ficava nas primeiras carteiras botando atenção em tudo que eu tentava passar sobre a importância da nossa profissão de jornalista na era nova da comunicação de massa.
Você foi longe, Valdir, passou nós todos. O que aprendeu com a nossa então Comunicação Rural, em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, com aquelas pessoas maravilhosas, a Zefa, por exemplo, você distribuiu por aí tudo com a sapiência de um scholar e a sabiduria terna e eterna de um mineirim de Inhotim.
Vamos nos encontrar!

Joana Belarmino

Ao expressar minhas homenagens ao querido professor Valdir de Castro, vêm-me à memória a doçura e afabilidade com que tratava os estudantes e colegas de trabalho, a força das ideias debatidas em sala de aula, a alegria partilhada conosco nos intervalos e outros encontros fora da faculdade. Foi um dos meus primeiros professores no curso de Comunicação Social da UFPb, e trouxe para nós, seus alunos, os debates efervescentes que ocorriam na América Latina, assim como nos apresentou o mestre Paulo Freire e os seus contributos para a comunicação.
Sim, o querido professor e amigo partiu, mas ficam em mim, em nós, o carinho, a ternura por esse ser especial que conviveu conosco e nos ensinou sobre a dedicação à docência e a beleza da amizade e da fraternidade.

David Fernandes

Requiem Aeternam Dona Eis, Domine
(Concede-lhes o eterno descanso, ó Senhor)
Estou aqui, diante de um computador, tomado por uma tristeza mansa, porque não houve tempo de ir a Brumadinho e atender a um desejo do meu professor, Valdir de Castro. Ele queria se despedir dos amigos e deixara o manuscrito de um livro. Eu e o professor João Lima, também seu aluno, nos organizamos para o dia 16 de janeiro, mas não deu tempo. Ele não pôde esperar por nós.
Sou profundamente grato por, ao longo da vida, ter tido a chance de conviver com um homem bom, generoso e espirituoso. Voltam-me lembranças do início dos anos 1980, quando eu era estudante e circulava pelos corredores do antigo DAC (Departamento de Artes e Comunicação da UFPB). Participavamos das discussões sobre comunicação rural — sua área predileta naquele tempo — e, com ele, aprendemos também a apreciar e compreender as coisas das minas gerais, embaladas por aquele “uai” tão característico. Ele gostava da convivência com os alunos na Oficina de Comunicação; era um convívio enriquecedor. Não por acaso, quase todos nós viramos, anos depois, professores.
Depois de alguns anos, ele trocou a UFPB pela UFMG. Ainda assim, o cordão umbilical não se rompeu. Encontramo-nos em Belo Horizonte — na rua Esmaltina — e no seu antigo sítio em Brumadinho, que mais tarde seria adquirido pelo Inhotim. Em Brumadinho, como esquecer as conversas ao redor da fogueira, tomando quentão? E como explicar que um sujeito tímido como eu terminou dançando forró no palco do evento, suportando a gozação carinhosa de Valdir e de seu irmão? E a velha Brasília branca, companheira de tantas histórias?
Agora, com sua partida sem despedidas, percebo que não agradeci o suficiente por tudo o que ele me deu: formação, respeito, amizade. Suas contribuições atravessaram mudanças, estudos, ofícios, viagens, encontros, desencontros e discussões — e, de algum modo, ajudaram a desenhar quem sou.
Às vezes me pergunto de onde os professores retiram tanta força e tanta paciência para orientar alguém por tanto tempo. A presença de Valdir sempre nos acompanhou. Recebemos, repetidas vezes, seu apoio e suas bênçãos. Hoje, sinto essa aura dentro de mim e tento devolvê-la ao mundo, como quem entrega ao vento muitas formas de afeto.
Todos conhecemos a verdade incômoda do desaparecimento. Carrego a lembrança da dor imensa de perder meus avós, a angústia da morte do meu pai, o pavor do dia em que perdi a companheira. Um vazio começa a se instalar. Mas quem teve professor sabe: professores não vão embora. Nós não fomos embora deles; não os desbordamos do peito; não permitimos que se tornem apenas passado.
Valdir seguirá por aí, em algum lugar, guiando nossos passos e fazendo suas recomendações.
Vêm-me, então, as palavras de Henry Sobel, rabino, que pediu o seguinte epitáfio:
— Imagine que você está à beira-mar e vê um navio partindo. Você o acompanha com os olhos enquanto ele se afasta, cada vez mais, até restar apenas um ponto no horizonte, onde o céu toca o mar. E você diz: “Pronto, ele se foi.” “Foi aonde?” Foi apenas a um lugar que sua visão não alcança. Ele continua tão grande, tão bonito e tão imponente quanto era quando estava perto de você. O que diminuiu foi a sua percepção, não ele. E, no instante em que você diz “Ele se foi”, há outros olhos vendo-o se aproximar e outras vozes, alegres, exclamando: “Ele está chegando.”
Aos que conviveram com Valdir, peço que não fabriquem lamúrias tristes. Valdir — e isso é o que importa — deixou este mundo melhor do que o encontrou. Que descanse em paz, merecidamente: aguerrido, abridor de caminhos, alguém que viveu livre e morreu livre, retornando à fonte de onde tudo começou.
Sua bênção, meu professor!

Consuelo Quiroga

Lembro demais do Waldir. Sempre tinha alguma notícia dele pois morava em Brumadinho, que, acho, ali nasceu. (A Aldeia fica na Casa Branca que é o município de Brumadinho). Fica para mim, um Waldir simples, comunicativo, acolhedor que reforçou em sua trajetória acadêmica e existencial um horizonte ampliado da comunicação e seus vínculos com a cultura popular. Expressava um profundo vínculo com a preservação da memória coletiva de Brumadinho, sua cidade natal, onde vivia. Se quiser “pinçar” algo do que escrevi, para fazer parte dos depoimentos, tranquilo. Escrevi demais e não cheguei a destacar a importância do trabalho dele numa Brumadinho marcada por enormes sequelas do rompimento da barragem do Córrego do Feijão.

Maria Ângela Mattos (Dedé) 

Valdir de Castro Oliveira – pessoa humana singular, muito querida e companheiro de várias jornadas -, representou importante referência acadêmica e intelectual para toda uma geração de estudantes da Faculdade de Comunicação Social da então Universidade Católica de Minas Gerais (UCMG), hoje PUC Minas, durante a década de 1970. 
Especialmente para mim, a referência de Valdir foi além dos anos em que cursei Comunicação/Jornalismo na UCMG. Ele foi parceiro constante em minha caminhada acadêmica. Mais que isso: Valdir inspirou, acompanhou, motivou e me apoiou em diversas fases estruturadoras da minha trajetória profissional e acadêmica, iniciada como técnica em educação e comunicação cooperativista na Secretaria de Agricultura do Estado de Minas Gerais. Posteriormente deu a maior força como docente da disciplina de Comunicação Comunitária a partir dos anos de 1980. 
Tenho o amigo Valdir como uma centelha em meus cursos de mestrado e doutorado em Comunicação. No primeiro, ele coorientou minha dissertação “O popular no ensino de comunicação: a trajetória do curso de Comunicação Social da PUC Minas”, defendida em 1992. No doutorado Valdir me ajudou a definir meu plano de voo e a elaborar o primeiro capítulo da tese “A formação teórica em comunicação social no ensino de graduação no contexto da Universidade Operacional: o caso da PUC Minas”, defendida em 2002.
Entusiasta da ideia de levar a universidade para além de seus muros, Valdir participou do grupo de professores e alunos que criou o Centro de Estudos e Pesquisas de Comunicação em Comunidade (Cepec), sistematizando e potencializando as atividades de extra-curriculares do do curso de comunicação. Esse Centro desenvolveu experiências de comunicação popular e alternativa no Vale do Jequitinhonha, na microregião de Araçuaí, e em outras regiões de Minas, congregando um contingente expressivo de professores alunos em atividades associativas no Estado.
As experiências do Cepec eram estreitamente articuladas às atividades político-pedagógicas da Faculdade, cujo ideal era desenvolver um ensino de comunicação comprometido com a transformação social, a democratização da comunicação e a resistência à ditadura militar. O jornal laboratório e comunitário Marco, o teatro popular na Vila 31 de Março, a Associação dos Artesãos do Vale do Jequitinhonha, o trabalho com produtores de hortas em comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte exemplificam experiências inovadoras implementadas no período.
Ciente da importância da praxis na formação educacional, Valdir e a equipe de monitores do Cepec idealizaram um projeto em que o Centro fosse além da sua dimensão acadêmica, transformando-se em espaço de experiência de vida, uma comunidade de afetos entre alunos, professores e pessoas das comunidades que participavam das atividades de comunicação. Dessa forma, possibilitou o compartilhamento de ideias, teorias, ideologias, valores e práticas sociais. Esse ambiente propiciou ainda o conhecimento de relevantes autores e perspectivas de comunicação horizontal e comunitária do Brasil e de outros países da América Latina.
Minha admiração por Valdir foi além da esfera acadêmica e nossos laços se estreitaram cada vez mais, o que me levou a participar dos eventos festivos que ele promovia em Inhotim, comunidade de Brumadinho onde residia, e a me tornar próxima à sua família, à sua esposa Cidinha e filhas.
Uma das últimas vezes em que nos encontramos foi no setor de hemodiálise do Hospital Felício Rocho. Fiquei muito tocada emocionalmente com o seu carisma junto aos novos amigos conhecidos durante o tratamento. Na fila de espera para fazer a sua sessão de hemodiálise, tive a oportunidade de sentir a ternura que ligava essa comunidade de afetos que se formou a partir da convivência de Valdir com seus companheiros. 
Valdir era assim, o seu modo afetivo de ser e viver se espraiava por onde passava.  Sua simplicidade, sensibilidade e o sentido comunitário que imprimia às suas práticas sociais se mesclavam com os seus projetos e conhecimentos acadêmicos. 
Sempre sorrindo, sempre enxergando além do horizonte.

Socorro Andrade

Foi com grande tristeza que recebi a notícia do falecimento do professor Valdir de Castro Lima. Como num filme, passaram-me pela cabeça boas e belas memórias daqueles anos intensos. Vivíamos um período de grande efervescência política, cultural e crítica: os últimos anos da ditadura e o início do processo de redemocratização do país. Professores e estudantes éramos parte ativa e agentes dessas lutas e transformações.
O DAC (Departamento de Artes e Comunicação) da UFPB estava sendo criado e acolheu professores vindos de várias partes do país — entre eles Valdir, Fausto, Cacá, Zélia Maluza, entre outros. Todos com a cabeça cheia de sonhos e um desejo inabalável de mudar o mundo. O DAC foi decisivo na formação dos cidadãos que somos hoje: pessoas comprometidas com um mundo mais justo, igualitário, humano, democrático e antifascistas.
O professor Valdir foi um dos grandes responsáveis por estimular essa consciência crítica que fomos ampliando ao longo dos anos. Ficam a saudade, a gratidão e a certeza do seu legado.
Valdir, presente sempre.

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